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21 de Agosto de 2019

Escola militarizada, incompatibilidade com a democracia?

Sérgio Henrique da Silva Pereira, Jornalista
há 4 anos

Assisti matéria jornalística do programa CQC (Custe o Que Custar), da Rede Band de Televisão. A matéria se passa em Manaus cuja escola pública foi militarizada pela polícia local, a PM.

Antes da militarização, a escola apresentava brigas frequentes [faca, revólver], desordens, ensino precário, comércio de drogas ilícitas. Após a militarização, os alunos relataram tranquilidade, melhoria no ensino. O repórter do CQC indagou sobre obrigatoriedade de seguir o modelo militar: corte de cabelo no estilo militar; proibição de batom; indumentária padronizada; chamar os superiores de "senhor"; bater continência etc. Os alunos reclamaram da disciplina militar.

O repórter também entrevistou alguns militares para saber se havia necessidade da disciplina militar, do uso de armas pelos policiais na escola - se a arma era a melhor forma de se educar os alunos, se era melhor a arma ou o livro para educar. Depois foi a vez dos professores. Todos consideravam a militarização da escola de forma positiva.

Em outro quadro, o repórter pergunta a outro militar se há necessidade de tratar as crianças com o modelo militar.

"Precisamos dar um pouco de freio para algumas crianças daqui, que em casa não tem. São valores que antes não tinham", respondera o militar.

De forma insistente, sobre a imposição de ensinamento no molde militar, o repórter pergunta quem fracassou, para se ter a intervenção dos policiais na escola, a Secretaria de Educação, o governo do estado, que não conseguiu cumprir seu papel de ensinar as crianças, ou foi a própria polícia que não consegui conter a violência que deveria estar no lado de fora [da escola].

O militar responde que é um conjunto de culpas, do Estado, da família e da própria Segurança Pública.

Dizer que há incompatibilidade entre as instituições militares com a democracia é um engodo. Quando democráticas, as instituições militares servem o país, isto é, protegem tanto as instituições democráticas, contra quaisquer atentados contra a democracia, quanto aos detentores reais de direitos, o povo [art. 1º, parágrafo único, da CF/1988]. Muito diferente é quando as instituições militares querem dirigir o país de forma déspota.

Nos governos democráticos [consolidados], os representantes do povo consultam os militares para a defesa e a segurança nacional. Por sua vez, os militares não apoiam nenhum grupo social, político ou étnico, os quais sejam contra os ideais democráticos, mas são defensores, fieis, do Estado Democrático de Direito.

O passado é passado - Golpe Militar de 1964 -, e o presente é a democracia. Negar o valor dos militares brasileiros, no Estado Democrático de Direito, é negar a própria existência da democracia em nosso país, materializada pela Carta Cidadã de 1988 [Ulisses Guimarães].

Apesar dos infortúnios que assolam as corporações militares, como a improbidade administrativa, a corrupção passiva, o peculato e a concussão, mesmo assim, ainda há militares patriotas, imbuídos nos mais sagrados compromissos à defesa da pátria, das instituições democráticas, dos civis. E todos os brasileiros devem acreditar, fortalecer as instituições democráticas sob o risco de torná-las fracas pelo próprio descaso do detentores de direitos.

Não cabe mais ojerizas à disciplina militar, desde que esteja entrosada com os preceitos democráticos, como o respeito à dignidade humana. Disciplina é ótima, e isso é comprovado pelos próprios estudiosos do comportamento humano. Nosso jovens não têm disciplina, respeito às instituições democráticas, aos idosos, aos bens públicos. Para eles, a democracia é oportunidade de se fazer o que se tem de vontade. O ECA, para os jovens, não passa de oportunidade de se proteger da Justiça, da sociedade que quer limitar seus atos, mesmo que sejam violentos.

Moral e Cívica e OSPB, duas matérias que existiam durante o Período Militar (1964 a 1985), entretanto foram arrancadas da educação brasileira, como sendo péssimas matérias para a democracia. Eis o grande problema, da ojeriza alucinada, não deram a devida análise às matérias. Poderiam ter subtraído o que achassem ser "militar", e deixado lições de civismo.

A falha do sistema brasileiro, quanto aos crimes contra a Administração Pública, a incivilidade entre os próprios brasileiros, não está numa instituição, seja ela pública ou privada, numa etnia, num partido político, numa religião, mas no arcabouço formado na desunião, provocada por interesses exclusos à democracia. São interesses que visam apenas certos grupos, instituições, pessoas, congregações, os quais se acham melhores do que as demais.

Na labuta diária de se afirmar "ser melhor", o país se encontra dividido por guerras ideológicas. Não há uma centralização que possa levar o Brasil para a democracia consolidada. Cada qual por si, cada qual lutando por melhores salários, por melhor moradia, pelo reconhecimento social pelos feitos. Individualismo, o grande mal em nosso país. Quando houver um corpo formado por uma legião de pensamentos universalistas, o Brasil será uma grande potência econômica e, principalmente, humanística.


Referência: CQC

P.S: Filme A Onda, produção alemã, lançado em 2008, questiona os limites entre disciplina e doutrinação ideológica.

https://youtu.be/QBKEi8qamKM

60 Comentários

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Onde falta a disciplina, o respeito e a educação, a anarquia se instala, este tipo de reportagem sobre colégios públicos que passaram a ser coordenados por militares não é exclusividade do programa em questão, se não me engano um outro programa este ano ou no ano passado fez o mesmo tipo de matéria, da mesma forma tendenciosa e pouco informada. Nos colégios com disciplina militar há um código de regras rígidas a serem seguidas, a disciplina e rigidez se fundamentam no caso pois a escola era antes um caos, agora se torna uma escola modelo, isso é uma melhora, é fato e não precisa de maiores explicações. No meu entendimento, as matérias são falta de conteúdo, pois só procuraram veicular casos de escolas militares onde antes o caos era instalado e com a disciplina militar passou a ser um local de excelência, com o único intuito da matéria de fazer uma crítica depreciativa do modelo de ensino disciplinar militar. Falar sobre as escolas sob a administração da polícia militar na base da crítica infundada além de injusto para com os profissionais comprometidos com aquelas instituições, é um desserviço à sociedade, aos pais dos alunos ali matriculados. Nestas matérias, são omissos em mencionar casos de colégios que já nasceram sob a égide da disciplina militar, são escolas de excelência, existe inclusive concurso (muito concorrido diga-se de passagem) para o ingresso, como é o caso do Colégio Naval no Rio de Janeiro, o Colégio Militar do Recife em Pernambuco, o Colégio Militar de Salvador na Bahia entre tantos outros. continuar lendo

Prezado João, parabenizo pelo seu comentário.

Realmente a matéria em questão é tendenciosa.
Estão confundindo Democracia com liberou geral, que é a síntese deste programa.
Não podemos negar que a ditadura é um exemplo a ser seguido, mas também não podemos dizer que foi de toda ruim, para esclarecer aos menos avisados, dos 98% de ruim, sobrou 2% de bom.
Digo isso porque, com conhecimento de causa, acredito que só podem falar mau ou bom, aqueles que viveram na época, sentiram seus efeitos.
Hoje é normal por muitos falar mau de um sistema (NÃO defendo a ditadura), baseados em fatos históricos, mas para tal, devem aprofundar muito em seus estudos para compreende-la, saber diferenciar ditadura de democracia, e muito mais, valorizar o quanto custou a muitos por essa conquista.
Todavia, muitos destes, como citado no exemplo do texto, nem nascidos a época, banalizam, distorcem a verdadeira imagem da democracia, com banalidades fúteis, que smj, para mim, cultura inútil.
Reafirmo, Não a ditadura, mas não banalizem a democracia com "liberou geral".
Democracia ao texto é; aos pais que não gostaram do sistema de ensino militar da escola, tem todo o direito da transferência. continuar lendo

Educação militar e cívica, é a meu ver um dos pilares da educação desde o berço. Quem opina contra tem uma visão tacanha. Esse programa é detestável, não levantou os índices de aprendizado e melhoria de vida dos adolescentes, se limitou a colocar defeitos no sistema militar. continuar lendo

Essa é a realidade em que nós vivemos, o Estado é omisso em todas as áreas.
Entre viver na anarquia; exposto a violência, o desrespeito de alunos mal educados pelos pais, a mercê do tráfico; prefiro a rigidez do militarismo, apesar de não gostar. Pelo menos nessa escola veremos ser formados cidadãos de bem mesmo que seja na base da imposição.
Não sou a favor da ditadura nem de regras rígidas do militarismo, mas nossa sociedade não sabe viver na liberdade da democracia, confundimos liberdade com libertinagem, anarquia, bagunça... continuar lendo

Sabe sim, democracia é aprendizado, e se o senhor for verificar em toda a nossa história é um lapso de tempo recente. A questão em tela, deve-se analisar o impacto dessa medida nos estudantes,e ao fim na própria segurança pública.De toda forma, pelo que foi falado aqui, é melhor a PM que o tráfico o qual já é presente em 100% das escolas do país. continuar lendo

Eu assisti esta matéria no CQC, e concordo com vocês.

Não é o ideal, e isso é bem óbvio pra mim, porque acho que uma edução de qualidade tem que estimular também a criatividade e o individualismo (não o exacerbado, obviamente) e pelo menos nestes dois pontos imagino que a escola militar não deva ser eficiente. Além disso, achei a rigidez excessiva. Penso que também não precisava seguir a liturgia ao pé da letra, bastava ser firme. Porque a criança ter que se comunicar com o amiguinho com "Senhor! Quer uma bala? Senhor!" (rs) já é um pouco demais.

Mas entre ficar à mercê da criminalidade, e na mão dos militares, a escolha é óbvia. E como os militares com certeza não "pediram" por isso, estão de parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido.

O fato é que estão salvando muitas vidas ali, e isso tem valor. Devia ser melhorado, e copiado para outros lugares com os mesmos problemas. Aliás, até hoje não entendo como pode todo o aparato militar não estar nas ruas combatendo a criminalidade.

"'É porque são treinados pra guerra", me dirá você.

Mas ouço isso há uns 30 anos. Será que já não dava pra estar treinando, e assim oferecer um serviço ÚTIL pra sociedade, ao invés de ficar treinando pra guerra (QUE, MUITO PROVAVELMENTE, NUNCA ACONTECERÁ)? continuar lendo

A culpa do problema de educação no Brasil é em sua maior parte dos pais, culpa-se o Estado pois este já virou bode expiatório de tudo, dos 7x1 da Alemanha, ao fim da garoa em São Paulo, mas a culpa é dos pais, estes não mostram para os filhos que a educação é a única saída, e as crianças, assim como eles vão obviamente procurar o jeito mais fácil: estudar, por que?, melhor é ficar no celular, empinar pipa etc, ou ainda, vão te dizer: Neymar não estudou e é rico!
Caímos em outro problema no Brasil: se vive para ser rico, logo, não importa a forma como você consegue, os fins justificam os meios, e convenhamos tem muito mais maneiras, sem precisar trabalhar, para ser tornar rico do que trabalhando, principalmente em lugar tão corrupto em com valores morais tão baixos como o nosso.
Outro problema causado pelos pais: os alunos, como todo brasileiro, tem muitos direitos e poucos deveres, por exemplo: o dever de prestar a atenção na aula, afinal eles vão para estudar, eles não tem!O dever de estudar em casa para melhorar e se aprimorar, eles não tem também!Porém o direito de ficar no celular dentro da sala de aula é garantido pela Constituição, de te ameaçar de morte é CLAUSULA PÉTREA!!, chega quase a ser um dever!!!O direito de tonar o ato de ensinar um INFERNO fazendo bagunça o tempo inteiro e te desrespeitando parece já estar em Súmula Vinculante!!!
A criança hoje no Brasil quer o direito de ser criança, o que é muito bonito na prática, e preciso, porém estudar não faz ninguém ser menos criança,só que os pais não entendem isso e buscam a coisa mais fácil: só vão cobrar das crianças quando elas já tiverem 18 anos e estiverem prestando vestibular.
Neste meio tempo já viraram senso comum, não tem mais capacide de pensar por si só e estão sem responsabilidade.
Qual o resultado disso? Você vê nas ruas: um povo corrupto, mentiroso, preguiçoso, violento e egoísta. continuar lendo

Quando se joga um cidadão duas horas dentro de um ônibus, quando se paga a ele um salário insuficiente para cuidar de um cão, o que o faz ter de trabalhar muito mais para conseguir comer, é muito querer dele que eduque bem seus filhos, que ao menos jante com eles, compareça na escola, ajude a estudar em casa, ai vem sim a culpa do Estado o qual é mal e porcamente gerido, diminua o tempo do cidadão dentro do ônibus e veja os reflexos na saúde, educação e segurança. continuar lendo

Eentendo que o papel da escola não é educar, o papel da escola é ensinar, o papel de educar sempre vai ser dos pais seja em qual sociedade for. Em tempos que se discute os males da terceirização será que não devemos também discutir os males da terceirização do papel de educar nossos filhos? Conheço pessoas que estão muito bem de vida e tem toda a condição de educar seus filhos muito bem mas que só se preocupam em colocar os filhos na escola mas cara da cidade como se isso fosse a melhor educação, mas me desculpe, não entendo o fato de apenas colocar o filho para estudar na melhor escola da cidade como educação e de quebra isso acaba criando verdadeiros monstros capazes até de atear fogo a outro ser humano para se divertir (como já aconteceu mais de uma vez diga-se de passagem). Por outro lado conheço gente que é extremamente trabalhador que mesmo com salários baixos e longas jornadas de trabalho são excelentes pais e que sabem educar seus filhos mesmo que esses estudem em escolas públicas que, teoricamente, são inferiores. Eu tive a enorme sorte de estudar em bons colégios e tive pais que se preocuparam em me educar, e sou extremamente grato por isso porque sei que milhares de pessoas não tiveram ou tem a sorte que eu tive.
Infelizmente não dá para cobrar do estado exercer o papel que tem que ser dos pais (mas que mesmo assim muitos cobram). Quem ensina o que é certo e errado, o que é honesto e desonesto, o que é digno do indigno, do que deve ou não ser aceito como normal não é da escola, são os pais. Berço não se ensina na escola, se ensina em casa.. continuar lendo

É verdade Roniel Cury o Estado só ESPIA tudo de ruim que acomete o povo brasileiro sem, contudo, nunca ter comparecido, como deveria, para nos proporcionar a saúde e educação pública de qualidade, sem mencionar uma infinidade de omissões, mazelas e desmando e por ai vai as lamúrias todas... e tudo isso porque pagamos poucos impostos né! continuar lendo