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19 de Junho de 2021

Mulheres devem usar roupas comportadas para evitarem estupros?

Sérgio Henrique da Silva Pereira, Jornalista
há 4 anos

O comportamento feminino incita ao estupro? As roupas das mulheres brasileiras são demasiadamente curtas para justificar os estupros?

Lembro-me de duas matérias jornalísticas, por mais que leio sobre psicologia humana, que me causaram perplexo. A primeira era de uma homem que teve que ser socorrido após introduzir seu membro num orifício na piscina. O outro acontecimento, o homem introduziu seu membro sexual no orifício do aro da roda. Isso é tara. Quando a libido é descontrolada, a pessoa não tem controle sobre seus desejos, a vontade é saciar-se. Temos a satiríase

Sigmund Freud dizia que o ser humano, durante o se desenvolvimento, desde lactante até a fase adulta, passa por várias fases. O perverso polimorfo na criança, a libido espalhada pelo corpo, pode, sem a devida educação, causar fixação em alguma parte do corpo da criança. De acordo com a intensidade da fixação, a libido pode, no adulto, transformar-se em desvios sexuais, como masturbação excessiva, exibicionismo, sadismo, sadismo, masoquismo e até o estupro. Cientificamente, a compulsação sexual é chamada de Desejo Sexual Hiperativo (DSH). Essas pessoas precisam de tratamento psiquiátrico. Muitas sofrem, emocionalmente, pelo que são.

Poderia ser o estupro marital uma válvula de escape para os maridos? Acredito que sim. A libido é uma das forças mais poderosas da natureza. O instinto sexual, tanto em homens quanto mulheres, é força impulsionadora aos relacionamentos humanos. Isso não quer dizer que o ser humano não possa ter amor sem sexo; há pessoas assexuadas que vivem muito bem como casais. Assim, o estupro marital, que é condenável e punido por lei, servia como válvula de escape.

Os prostíbulos sempre foram uma válvula de escape para a libido humana. Na rigidez dos dogmas religiosos ocidentais, os prostíbulos eram a salvação para a vontade de potência reprimida. Freud, muito mal compreendido em sua época, trouxe luz científica sobre à libido humana e os padrões repressores, sexuais, causadores de neuroses. Para os dogmáticos, Freud era um pervertido. Contudo, o pai da psicanálise jamais pregou que os seres humanos devem viver conforme seus impulsos sexuais, pois é perigoso. O meio termo, isto é, uma vida saudável pelo equilíbrio.

As revistas pornográficas também servem ao expurgo da libido. O ser humano faz sexo por vários motivos: descarregar suas tensões diárias sejam por motivos laborais, medo da violência urbana; demonstração de poder, ou seja, a capacidade de conquistar. Enfim, a literatura psicanalítica demonstras as várias facetas do comportamento humano quanto à libido.

Depreende-se que a libido, quando descontrolada ou Desejo Sexual Hiperativo (DSH), é um perigo tanto para a própria pessoa quanto à vítima, no caso de estupro. No caso de pessoas abastadas, a prostituição é ótima oportunidade de se desencadear a libido (DSH), pois não há cometimento de crime — pagou, teve o serviço prestado —, muito diferente da pessoa que não tem condições de bancar sua libido (DSH). No entanto, mesmo em casos de pessoas abastada, não há plena satisfação, sexual, de pagar por um programa sexual; é mais prazeroso atacar alguma pessoa na via pública. O susto, o temor, o medo da vítima, todos estes eventos servem como potencializadores à libido do estuprador. É o sadismo!

Há estupradores presos que admitem que não podem mais retornar ao seio social. Não possuem controle sobre seus desejos sexuais. Há deputados propondo castração química para os estupradores contumazes.

Feito esta introdução, a roupa causa ou proporciona o estupro de mulheres? Logicamente que não. No entanto, entrarei em tema espinhoso. Para um estuprador, quanto menos roupa, melhor. Uma praça pública. É noite, há um corredor formado por árvores perfiladas de ambos os lados, a iluminação é precária. O estuprador já conhece o local, sabe do término do horário das aulas na Universidade. Sabe também quem passa ali: quatro mulheres. Uma delas veste uma roupa bem decotada. O estuprador tem uma arma de fogo.

As presas, entrando na mente do estuprador, devem passar na localidade a qualquer momento. As quatro mulheres surgem, o estuprador aparece apontando uma arma, manda que as outras mulheres saem, senão ele atirará. A vítima, com roupas curtas, é pega, levada para dentro da vegetação. Por ter roupas curtas, vestir saia, o ato é consumado o mais rápido possível. Uma mulher com calça daria mais trabalho. É uma construção hipotética. Há casos de mulheres estupradas mesmo usando calças, mas tudo depende de cada caso concreto: circunstâncias mesológicas dos crimes.

Os especialistas em segurança recomendam que os usuários de vias terrestres, os motoristas, não parem próximos do sinal luminoso semáforo, mantenham os vidros das janelas fechadas etc. São medidas de segurança. Diante dos inúmeros estupros, tanto no Brasil quanto em outros países, como a Índia, caso algum especialista em segurança recomendasse que, diante da insegurança pública, as mulheres não andassem pelas vias usando roupas curtas, saias, será que ele é machistas ou propôs comportamento de segurança? Ela recomenda que as mulheres trajem calças, e como acessório íntimo uma permuda sintética. Recomenda, também, que as calças tenham cinto para dificultar a retirada da calça. Absurdo? Também penso.

Da mesma forma penso que as medidas, exaustivas, de segurança para os usuários de vias terrestres contra os furtos e roubos. Enquanto a criminalidade avança, medidas de segurança tornam a vida das possíveis vítimas, todos somos, insuportáveis. Porém, as medidas de segurança, como evitar entrar em áreas de risco, já que o Poder Público não tem nenhum poder quanto à insegurança pública, tornam-se necessárias e normais. Entenderam, agora, sobre o uso de roupas "decentes" para as mulheres não serem estupradas? Existem pessoas com DSH, mas não são a maioria do povo brasileiro, ou da humanidade.

Em outro artigo, dissertei sobre a autopossessão da mulher: se ela quer ter relações sexuais com mais de dois homens, e somente dois, isto não dá o direito de terceiro forçar pelo motivo "Deu para dois, cabe mais um". A autopossessão, no contemporâneo arcabouço jurídico pátrio, considera estupro qualquer ato contra a liberdade sexual da mulher e do homem. Aquela prática "Dá uns goles para a pessoa ficar na minha mão" constitui crime, caso a pessoa vítima não tenha plena consciência do que faz. O mesmo vale para as mulheres.

Deixo aos leitores refletirem e comentarem: diante da insegurança pública, as mulheres devem vestir roupas "seguras", como calças, para evitarem de serem violadas sexualmente?

2 Comentários

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Cidadão deve evitar andar com celular "dando bandeira" para não ser roubado? ou caminhar por lugares que se sabe de risco, já que é dever a segurança pública podemos passar onde quisermos que não devemos ser roubados ou assassinados não?

Uma coisa é não usar roupa assim, assado, outra é se prevenir contra a criminalidade aumentando a cada dia em nosso país, e cada dia mais bandidos nas ruas e mais cidadãos morrendo. continuar lendo

Sérgio:
Você descreveu com muita naturalidade aquilo que as vezes percebemos tão difícil de entender.
As pessoas estão confundindo direitos, com cultura.
Avançamos muito entregando às mulheres o que é seu por direito, que é a liberdade de se vestirem da forma que quiserem , andarem por onde desejarem e jamais por isso serem molestadas.
Só que escrevemos esses direitos apenas nos papéis e não na mentes, ou seja, o direito ainda não fez a cultura e enquanto isso não acontece, prevenir e proteger, é a palavra de ordem.
É como em uma guerra. Tem menos chance de morrer baleado que se esconde atrás das trincheiras e está acordado para o momento. Mesmo depois de declarado o fim da guerra, uma bala ainda pode ser mortal.
A aplicação severa das leis, trará com o tempo a cultura, modificará costumes, ignorâncias e irá impor o desejado respeito. continuar lendo