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19 de Outubro de 2019

Brasil e Venezuela. Algo em comum

Sérgio Henrique da Silva Pereira, Jornalista
há 8 meses

Oposições. De um lado, os que amam Juan Guaidó e odeiam Nicolás Maduro. De outro, os que amam Nicolás Maduro e odeiam Juan Guaidó. No Brasil, não é diferente. Os que amam Lula e odeiam Jair Messias Bolsonaro; e os que amam Jair Bolsonaro e odeiam Lula.

Juan Guaidó e Jair Messias Bolsonaro representam uma "oxigenação" na política, nas instituições democráticas. Um "novo país" após os "destronados ex-governantes". Assim são as promessas.

Contemporaneamente, a Venezuela está dividida. Uma possível guerra civil pelo caos político. Os militares e civis venezuelanos apoiam Nicolás Maduro. Maduro ganhou democraticamente, pelo sufrágio. Juan Guaidó perdeu; há civis defendendo sua "vitória" nas urnas — dizem que as eleições foram fraudadas.

Brasil. Ditadura militar, de 1964 a 1985. Para os cidadãos defensores dos militares, não houve "ditadura", mas "regime". A justificativa, os civis apoiaram os militares. Quantos?

Venezuela:

Esse apoio a Guaidó, contudo, não é absoluto. 32% dos entrevistados disse “não saber” se apoia ou não, enquanto 27% reprovou o autoproclamado líder venezuelano. A situação ruim de Nicolás Maduro, contudo, é evidente: 76% rechaça o seu governo e 78% quer a sua destituição do posto.
A pesquisa também sondou os participantes sobre seus posicionamentos ante uma possível “ação decisiva” dos Estados Unidos no país. Aqui, os venezuelanos foram claros e 80% deles se disse contrário ao cenário no qual o governo de Trump intervenha no país. (1)

Não é a maioria que apoiam Juan Guaidó.

Internacionalmente, temos Brasil, EUA e outros países, em apoio a Juan Guaidó; China e Rússia apoiam Nicolás Maduro. Num vislumbre, pelo prisma das doutrinações ideopolíticas, China e Rússia são "comunistas", assim como Venezuela. Consequentemente, "comunistas" apoiam "comunistas". Países democráticos, como Brasil, EUA, União Europeia, não estão reconhecendo a legitimidade de Maduro.

Nas redes sociais, "venezuelanos estão passando fome". No Brasil não parece que milhões de brasileiros não passam fome. Em alguns lugares, a comida do dia pode vir de algum lixão (aterro sanitário) ou de algum contêiner de lixo. Mães venezuelanas veem para o Brasil e, sem condições, trabalham como "garotas de programa", infelizes pela ditadura na Venezuela. Quando é uma cidadã brasileira em tal condição, o patriotismo brasileiro surge e "uma mulher sem caráter que quer vida fácil".

Quando se fala "militares em apoio ao presidente Maduro" surge "o apoio é pela corrupção". Ou seja, o "toma lá, dá cá". Nos relatórios da Comissão da Verdade (2) a corrupção também agraciou os militares.

Em relação aos dissidentes, tanto na Venezuela quanto no Brasil alguns militares foram contra o (s) governante (s). O oficial Rubén Alberto Paz Jiménez foi contra Maduro. No Brasil, alguns militares foram contra outros militares. (3)

Interferências internacionais nas soberanias. Os EUA dizem que Maduro é um ditador. Extraordinariamente, Donald Trump, atual presidente dos EUA, age como um ditador ao desacreditar os meios de comunicações, de querer proibir, quem ele não gosta, alguns jornalistas "perguntam demais". No Brasil, a IV frota norte-americana estava na costa nordestina esperando as atuações dos militares brasileiros. Ou seja, caso estes não fizessem nada, os canhões das frotas fariam.

É notório que países interferem em outros países para confiscar riquezas. Se anteriormente à Segunda Guerra Mundial o confisco acontecia com ponta de baioneta, seguida ou não de ideologia de "superiores" e "inferiores", os novos confisco são indiretos, o uso dos direitos humanos. Numa ação "humanitária", os EUA invadiram o Vietnã — ótimo documentário no Netflix —, o Iraque. Ajuda "humanitária" tem sido a desculpa para novas invasões e explorações das riquezas dos países invadidos "humanitariamente". O comércio de armas bélicas, e o Brasil ingressou, tem como intuito de "ajudar o país contra a ditadura". Não se vê tanta ajuda "humanitária" dentro dos próprios países. Por exemplo, o furacão Charley nos EUA. As ajudas alcançarem, primeiramente, os brancos.O custo-benefício empresarial qualifica os seres humanos em valor econômico indenizável. Ou seja, os atos negativamente exemplares são calculados, e destes cálculos o quanto de prejuízo nas indenizações às famílias etc. Claro, sempre computando valores menores.

Diversos canais, imprensa. Cada qual discorrendo sobre os eventos locais e internacionais. Alguns são polarizados, isto é, visão ideologias, não as informações para os reais intuitos dos direitos humanos.

No geral, o mito deve sobreviver, não importando os mortais seres humanos. O mito — capitalismo, comunismo, socialismo etc. — deve existir. O problema não está em cada mito, pois cada qual, assim como as diversas religiões, procura alcança o mundo das ideias para, então, materializá-lo. E como existem vários "mundos", os combates. Combates estes sem se centrarem no âmago da existência do mundo da ideia, o bem-estar do ser humano. No final, cada "mundo" é uma forma de utilitarismo, mesmo a ideologia que se diz "liberal".

Se há uma ditadura na Venezuela pelos anos de Maduro no poder, como explicar modificações nas leis nos países democráticos para o governante poder ficar mais tempo? Por exemplo, reeleger-se para o segundo mandato. Claro, toda máquina estatal irá funcionar para mostrar os grandes feitos do governante. Na ruptura deste poder, quem não está no poder procura empresário para custear comícios, panfletos etc. No final, quem está no poder fará qualquer coalizão, mesmo contra os princípios ideológicos próprio ou partidário, para se manter. Quem está fora do poder, também fará de tudo para ter o poder. Seres humanos querendo poder.

Há seres humanos com boas intenções de ajudar? Sim. O problema está no pensar rígido quanto à ideologia entranhada na alma. A flexibilização às ideias é fator primordial para uma boa governabilidade. Não é possível dar recursos sem ensinar como obtê-los, por si mesmo.

Em algumas páginas "em defesa do nacionalismo" há verdades. Certa proteção às riquezas nacionais é necessária. Em outro artigo, mencionei Celso Antonio Bandeira de Mello sobre o neoliberalismo e sua capacidade de mudar as leis interna de um país para favorecer os interesses internacionais. Pergunto: alguns sócios, ou mesmo o empresário, irão morar em local cuja empresa pode causar danos ambientais pelo custo-benefício?

A crise na Venezuela, com olhos e ouvidos imparciais, isto é, sem "modelos mentais", é capaz de tecer várias observações para os próximos séculos:

  • Quais os reais interesses de outros países na questão "ajuda humanitária"?
  • Qual a quantidade de felicidade de um povo pode ser considerada "soberania intocável"?
  • Em quais proporções e momentos o nacionalismo e a privatização serão benéficos para o próprio povo?
  • A democracia é o tipo de regime político capaz de fornecer equidade e dignidade para todos os cidadãos?
  • As Forças Armadas devem ter função primordial para defender os interesses da maior, ou com maior poder de influência, comunidade?
  • Os interesses visionários do governante podem ser defendidos mesmo com o apreço pela maioria do povo?
  • Em quais momentos é coerente invocar "segurança nacional" contra a liberdade de expressão dos que são contrários ou a favor do governante?
  • A mídia, qual a sua função diante dos preceitos dos direitos humanos?
  • Se a fome é um indicador de ditadura ideológica, a fome em países democráticos, com Produtos Internos Brutos substanciais, não tem viés de alguma ditadura ideológica?
  • Se um país ditador ocasiona pobreza, concentração de riquezas e corrupção, qual o parâmetro diferenciador para países democráticos com altas taxas de desigualdades sociais, privilégios e corrupções? Uma boa análise. Nos países considerados ditadores, os cidadãos entranhados no âmago do próprio Estado, por indicação política, sem concurso público, conseguem viver faustosamente. Nos países democráticos, os cidadãos entranhados no âmago do próprio Estado, por indicação política, pela meritocracia de ser aprovado em concurso público, conseguem viver faustosamente;
  • Interesses empresariais devem nortear o rumo do Estado, as decisões do Congresso. E tanto numa democracia quanto num ditadura, interesses de obtenção de riqueza não faz diferenciações se ditadura ou democracia. Bem exemplo, a Alemanha Nazista.

Interesses sempre existiram, e nada democráticos, no sentido de universalização de garantia de dignidade . As suspeitas de fraudes nas eleições não é algo novo. No Brasil, nos anos de 1980, o CASO PROCONSULT — eleições diretas para governador do Estado do Rio de Janeiro. Nos EUA, o Watergate. É possível perceber, os significantes "democracia" e "ditadura" possuem sentidos (significados) conforme as interpretações nas mentes dos leitores. A imagem e a ideia que se formam na mente têm concordâncias conforme o tipo de aprendizado: "democracia" é liberdade; "ditadura" é coação.

No Brasil, nas eleições de 2018, os "fake news" tomaram conta das mídias. Cada ideologia sendo aplicada para garantir vida boa. Ora, nenhuma democracia humanística é possível quando há "fake". A dignidade humana não é um meio para se alcançar "vitórias democráticas".

Sobre ditadura:

Dicionário Aurélio Século XXI

[Do lat. dictatura.]
S. f.
1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, dum grupo, duma assembleia, dum partido, ou duma classe.
[Cf. democracia (2).]
2. Qualquer regime de governo que cerceia ou suprime as liberdades individuais.
3. Fig. Excesso de autoridade; despotismo, tirania.
u Ditadura do proletariado.
1. Regime político, social e econômico desenvolvido teórica e praticamente por Lenin (v. leninismo), e que se baseia no poder absoluto da classe operária, como primeira etapa na construção do comunismo.

Notas:

(1) — EXAME. 39% dos venezuelanos apoiam Guaidó como presidente interino, diz pesquisa. Disponível em: https://exame.abril.com.br/mundo/venezuelanos-reconhecem-guaido-como-presidente-interino-revela-pesq...

(2) — Comissão da Verdade. Disponível em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/

(3) — Comissão da Verdade. A perseguição aos militares que resistiram à ditadura. Disponível em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/parteicap6.html

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