jusbrasil.com.br
19 de Junho de 2021

Quem deve ser socorrido primeiro, Jair Messias Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva?

Sérgio Henrique da Silva Pereira, Jornalista
há 2 anos

Em tempos de polarizações ideopolíticas, não custa frisar o princípio da dignidade humana, todo ser humano é um fim em si mesmo.

Igualdade e equidade. Urgência e emergência nos primeiros socorros.

Dois seres humanos transitam na via pública. Um se chama Jair Messias Bolsonaro, o outro Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos sofrem acidente. Lula tem fratura no fêmur, não exposta. Bolsonaro tem fratura no antebraço e hemorragia arterial na coxa devido um corte.

Ambos são seres humanos com dignidade, perante a poderosa ética moral kantiana. Contudo, pelas condições, urgência e emergência, a equidade. Há igualdade, ambos devem ser atendidos.

No caso apresentado, o socorrista deve prestar os primeiros socorros ao atual presidente da República. Bolsonaro será atendido primeiro. Isso é equidade. O princípio da isonomia é mantido, ambos são dignos em si, merecedores de atendimento pré-hospitalar eficiente.

Por uma condição fática, a hemorragia arterial, Bolsonaro deve ser socorrido primeiro.

Pelo utilitarismo, quem deve ser socorrido primeiro? Se o maior prazer, a maioria, é a saúde de Lula, o atendimento médico, nos primeiros socorros, deve ser prioritário.

Lula foi condenado, está preso. Pelo utilitarismo "anticorrupção", Bolsonaro tem prioridade no socorro e tratamento.

Bolsonaro é réu por dizer que Maria do Rosário não seria estuprada por não merecer. Pelo utilitarismo "anticomunismo", Bolsonaro é perdoado. Assim, no acidente, Bolsonaro merece ser atendido primeiros, independente se o quadro é grave. Lula é "comunista".

Fim do mandato de Bolsonaro. Trânsito julgado; condenação do Messias. Ainda pelo utilitárismo "antiesquerda", uma condenação injusta. Bolsonaro deve ser socorrido primeiro do que Lula.

JUSTIÇA EM "A REPÚBLICA"

Diálogo entre Sócrates e Polemarco:

-- Então, Polemarco, fazer mal não é a ação do homem justo, quer seja a um amigo, quer a qualquer outra pessoa, mas, pelo contrário, é a ação de um homem injusto.

-- Parece-me inteiramente verdade o que diz, Sócrates.

-- Portanto, se alguém disser que a justiça consiste em restituir a cada um aquilo que lhe é devido, e com isso significa que o homem justo deve fazer mal aos inimigos, e bem aos amigos, quem assim falar não é sábio, porquanto não disse a verdade. Portanto, em caso algum parece que fosse justo fazer mal a alguém.

-- Concordo -- disse ele.

O INÍCIO DA DIGNIDADE HUMANA NO UTILITARISMO

Diferentemente de Jeremy Bentham, o utilitarismo de John Stuart Mill propôs conceber a dignidade humana, ou seja, não é possível maximizar o prazer pela vontade da maioria, como defendia Bentham.

Dessa forma, tanto Bolsonaro quanto Lula têm dignidade. Mill fez distinção entre "prazer elevado" do "prazer baixo".

Se as pessoas realmente desejam algo, o juízo moral. Para isso, experimentar ambos os prazeres.

Lula e Bolsonaro. Cada qual com convicções próprias sobre o que é melhor para o povo.

Lula prometeu Estado social para promoção da igualdade entre todos os brasileiros. Bolsonaro considera o Estado liberal como única possibilidade de desenvolvimento econômico e da dignidade humana.

Bolsonaro, quando deputado, foi contra o programa social Bolsa Família:

“O Bolsa Família nada mais é do que um projeto para tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda, para que use seu título de eleitor e mantenha quem está no poder.” (Crítico do programa, Bolsonaro se contradiz ao defender Bolsa Família. Disponível em: https://aosfatos.org/noticias/critico-do-programa-bolsonaro-se-contradiz-ao-defender-bolsa-família/)

No livro 18 Dias, de Mathias Spectro, o presidente da República Fernando Henrique Cardoso intermediou encontro entre Lula e Bush. A finalidade era garantir vitória e posse de Lula.

Lula disse para Bush que continuaria com os programas sociais de FHC, e aperfeiçoaria ainda mais para dar dignidade aos miseráveis e pobres no Brasil.

Pois bem, dois seres humanos, Lula e Bolsonaro. Para o povo saber qual é o "prazer elevado" terá que experimentar o governo de Bolsonaro. Com o término, e devidas comparações, entre os governos de Lula e Bolsonaro, a escolha do "prazer elevado".

No entanto, segundo Mill, há necessidade de as pessoas terem instruções, no sentido de escolaridade, para diferenciarem os "prazeres" e, consequentemente, preferirem o "prazer elevado".

Durante o governo de Lula as ações afirmativas, como as cotas raciais. O Estado social.

Bolsonaro prefere Estado liberal, ou seja, cada estudante paga conforme o poder econômico, ou pela meritocracia -- está depende do grau de liberdade disponível para certos grupos com ideologias desiguais da ideologia dominante. Por exemplo, dificilmente escravo seria doutor para defender os escravos contra os abusos dos escravocratas.

Qual será socorrido primeiro, Bolsonaro ou Lula, após os eleitores experimentarem os "prazeres" nos governos de ambos concomitantemente com instruções para todos?

Instrução é conhecimento, sem restrições, é o saber pela liberdade de expressão, dentro e fora das instituições de ensino.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No ordenamento jurídico vigente, ambos, Lula e Bolsonaro, têm dignidade, não há possibilidade de priorizar atendimento de socorro pelo "gosto da maioria", ou convicção de quem socorre.

Mesmo na condição de condenado, no caso de Lula, ou futuramente Bolsonaro, o Estado não pode fazer diferenciações geradoras de exclusões, ou criar privilégios, pelo utilitarismo.

Chefe de Estado e chefe de Governos versus "cidadão do povo"

A diferença "prioridade" é quanto à condição de cada um. Bolsonaro é presidente da República e, como tal, é chefe de Estado e de Governo, merecedor de um plus no atendimento médico. O Estado Democrático de Direito necessita de chefe de Governo, o Estado não pode ficar sem direção certa.

Ambos, agora ex-presidentes, possuem desigualdades econômicas. Bolsonaro tem como custear plano de saúde privada, com direto de remoção por helicóptero. Lula, como milhões de brasileiros dependentes do Corpo de Bombeiros e do Sistema Único de Saúde, aguardará o socorro dos bombeiros - muitos batalhões não funcionam, eficientemente, por, como sempre, falta de recursos. Socorrido, também aguardará por atendimento nalgum hospital. E quando será atendido?

Neste caso, a dignidade humana está condicionada pelo "poder do ter". Quem tem mais, melhor o serviço de saúde. Sociedade de mercado.


0 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)