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4 de Abril de 2020

Oscar 2020. "Democracia em Vertigem". O Brasil sempre esteve em vertigem

Sérgio Henrique da Silva Pereira, Jornalista
há 2 meses

A cor vermelha pode ser símbolo de qualquer forma de violação aos direitos humanos. As cores branca, azul, amarela e verde podem esconder os séculos de violações aos direitos humanos

Assisti, e gostei do documentário "Democracia em Vertigem". Uma síntese sobre o Brasil, o documentário: Lula, "o pai dos pobres", a sua vida difícil como de muitos outros nordestinos, e outros párias sociais, a ascensão de Lula até ser eleito, em 2003, como presidente da República, a felicidade do povo (párias) por terem dignidade; os Anos de Chumbo, um arcabouço de "defesa da família tradicional", as elites e seus interesses econômicos; nostalgia, por parte da cineasta Ana Petra Costa ao relembra sua infância, comparações ideopolíticas, seus pais antiburguesia e outros familiares como "burgueses"; sentimento de "traição", de Michel Temer; o "Circo Brasil", a maioria dos deputados a favor do impeachment de Dilma Rousseff eram corruptos; o defensor de torturador, o então deputado federal Jair Bolsonaro, em plena democracia humanística, ao exaltar Carlos Alberto Brilhante Ustra; as ascensões de cidadãos (ã) pelos discursos "Fora PT", "PT ladrão" em nome de um mundo das ideias sem os seres humanos — neste aspecto, o ser humano é o que é: falho; com manias; dúvidas existenciais etc.

O documentário brasileiro concorreu ao Oscar de 2020, e isto merece aplausos. Há, desde muito tempo, um sentimento de aversão ao Brasil pelos próprios brasileiros. Jornalistas, advogados, médicos, pedreiros, enfim, a maioria dos brasileiros veem o Brasil como um país de tolos e eternos subdesenvolvidos. Sátiras são criadas com o povo brasileiro, no entanto, o "povo" é sinônimo de "pária". As elites, aquelas pessoas que nasceram com algum nome "respeitoso", "tradicional", ou conseguiram ascensão socioeconômica pela "meritocracia" — quando alguns brasileiros conseguiram ascensionar de uma classe social para outra, os brasileiros "nobres", de tradição familiar com nomes e sobrenomes elitizados, ridicularizaram os "emergentes"; estou me referindo aos anos de 1980 —, não perdiam tempo de fazerem sarcasmos aos "pária". É de se considerar "verdadeira vertigem" por parte de quem é "emergente". Saídos dos bairros suburbanos para regiões despovoadas, sem especulações imobiliárias, típicas de localidades com pessoas com elevados padrões econômicos, e com o tempo as localidades ficaram supervalorizadas, somada com o neoliberalismo no Brasil, os produtos importados dos Tigres Asiáticos, uma "nova vida no Brasil". A vida para poucos, pois as desigualdades sociais continuavam, como sempre, e os párias continuavam em seus "devidos lugares". Entre um e outro, a ascensão socioeconômica, mas nada demais diante da secularidade da Arquitetura da Discriminação.

Infelizmente, a ideia de que no Brasil nada dá certo, por ter um povo ignorante, destituído de qualidade "superiores" em relação aos demais povos. o eurocentrismo é uma das causas. O Brasil tem em suas bases estruturais os racismos, de todos os tipos, desde aos negros, aos LGBTs e às mulheres; os nordestinos também ingressam. O "sangue azul" imperou, e ainda impera, no inconsciente coletivo brasileiro. Da miscigenação, ainda assim, a Arquitetura da Discriminação perdurou por séculos, e ainda persiste na cultura brasileira.

O desenvolvimento brasileiro privilegiou algumas classes sociais, o Estado era um apêndice da Arquitetura da Discriminação. para funcionar, a Máquina Antropofágica. A história esquecida do 1º barão negro do Brasil Império, senhor de mil escravos, [1]disto é possível extrair ilações importantes. A adaptação ao sistema utilitarista, a aceitação do "diferente", os negros, desde o momento que estes párias incorporação em suas vidas os costumes dos "superiores". O eurocentrismo, o darwinismo social, a Maldição de Cam, a iconografia do racismo estrutural. Nestes conceitos, os "bons modos" de pessoas "evoluídas", "civilizadas". E sempre que um povo se tornar hegemônico, os traços culturais de outras civilizações, ou dos povos, são apagadas na História, em outros aspectos modificadas. A "tolerância" dos povos "evoluídos" era proporcional à submissão do dominado. Para isso, era necessário criar mecanismos de "conversão", a primeira era a educação, os conquistados assimilariam os "bons costumes", caso a educação não surtisse efeito esperado, o Código Penal do Inimigo para aplacar os ânimos exaltados dos "subversivos". Apartheid africano foi assim. Sim, muitos outros apartheid existiram na História. Na Índia, as castas, e os ingleses, da época, apoderaram-se do que já existia na cultura indiana. Há vários meios de fazer com que uma cultura seja assimilada por outra, e sem violência. Um mito poderoso que dá alimentos em abundância, protege de outros povos, geralmente "bárbaros", supri às necessidades através da inteligência do povo escolhido. Quando li Os deuses eram astronautas? fiquei maravilhado com uma informação. Faz tempo que li. Um avião, pousa numa ilha. O povo nunca tinha visto avião, e jamais teve contato com o "mundo civilizado". Após algum tempo, os mesmo tripulantes retornaram para a ilha, a surpresa foi ver um réplica, em madeira, do avião, o novo mito. Não é de se considerar que um novo sacerdócio surgiu, uma nova hierarquia, classe. Os antigos sacerdotes talvez não gostaram, por perderem o poder, o prestígio etc.

Os EUA são idolatrados pelos brasileiros "anticomunistas". Nada contra os EUA, mas a sua intromissão nos países latinos não foi para garantir democracia, "proteção" contra a Europa. Com o tempo, a exploração das riquezas e da força de trabalho dos latinos. EUA tem várias riquezas naturais, porém, de forma astuta, não esgota tais riquezas, as riquezas de outros países são exploradas e esgotadas. Claro que não é uma invenção norte-americana, novamente a História para comprovar explorações de povos por povos. Fico pensando, os meios justificam os fins para sacrificar o próprio povo em nome de uma ideologia? [2] E penso mais ainda, sem liberdade de expressão, que envolve a liberdade de imprensa, não é possível ao próprio povo saber das intenções do próprio Estado, um mito cuja existência depende dos seres humanos, e quais as suas reais intenções, pelos que controlam o Estado, é de suma importância a transparência.

Justiça, o lado moral da internet e Maiêutica Socrática são duas criações minha como forma de dar alguma contribuição diante das notícias falsas, dos interesses nada patrióticos — não é possível ser patriota endeusando outro Estado, muito menos colocar Estátua da Liberdade na fachada de edificação e gritar "sou patriota e amo o Brasil". Incongruência. Como mencionei em outros artigos, as redes sociais sempre foram de meu interesse, pois permitem, as redes, uma catarse coletiva; o anonimato, agora os "robôs" (algoritmos), conquanto não se autocriaram, há seres humanos por trás, garante "falar sem mimimi" o que se pensa. Na maioria das vezes, defesas calorosas de valores sociais não mais compatíveis com os valores éticos morais dos direitos humanos — Nietzsche entenderia como um novo niilismo, assim como as religiões também são consideradas como niilistas.

Há várias misturas, contemporaneamente, na sociedade brasileira, de filosofias, políticas, econômicas, éticas. Defensores do livre mercado, defensores das liberdades individuais, grupos se formam, cada qual com seus respectivos "mundo das ideias". Conservadores e liberais (liberais clássicos e libertários, e deste o anarcocapitalismo), em lutas. Faz tempo que pesquiso sobre liberais e conservadores nos EUA. Os liberais, no sentido de libertários, querem privatizações, liberdades individuais pelo Estado laico; os conservadores querem a manutenção da tradição judaico-cristã pelo Estado, não querem privatizações, mas valorizações das empresas norte-americanas, ou seja, livre mercado causa falências de empreendedores norte-americanos, abre o mercado para outros países explorarem os trabalhadores norte-americanos, em outros casos, as importações de mão de obra estrangeira para trabalharem em solo norte-americano.

No Oscar 2020, o vencedor: Indústria Americana.

Soa como "comunismo". Trabalhadores norte-americanos exigindo proteção do sindicato, comunidade e os desempregados pelo encerramento das atividades da empresa automotiva local — lembra o documentário Roger & My, de Michael Moore —, trabalhadores e seus direitos humanos — no Brasil, os direitos humanos quanto à defesa dos trabalhadores virou sinônimo de "desserviço nacional", os advogados trabalhistas foram intitulados de "advogados comunistas"; e pensar que nos EUA há leis de proteções aos trabalhadores [3] —, a automação e o aumento do desemprego, os choques culturais, os empregados chineses não reclamam, os empregados norte-americanos reclamam.

Na questão da diferença cultural entre China e EUA. Sócrates seria preso e silenciado na China, enquanto nos EUA receberia louvores por agir pela liberdade de expressão. O problema de qualquer democracia, por assim dizer, é a liberdade de expressão. Todo governo autoritário jamais quererá a liberdade de expressão. Existe forte senso comunitário na China, o filósofo Confúcio acreditava na ordem social, na atitude libada do governante, na tradição. Sócrates e Confúcio. Imaginem. No documentário Indústria Americana é visível os comportamentos antagônicos entre chineses e norte-americanos. Immanuel Kant seria outro "estraga prazeres" por acreditar não na tradição, mas na condição individual, não individualista.

Diz o supervisor, "Faça isto!"; Diz o presidente da República, "Fala isto!"; Diz o sacerdote, o padre, o bispo, "Faça isto!". Por toda parte a "menoridade".

"A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!
A preguiça e a covardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida.
(...)
Semear preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente consegue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.
(...)
Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas obedecei!) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade." (Immanuel Kant, O que é o Iluminismo?)

Uma "pequena" diferença "entre culturas quanto aos comportamentos antagônicos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O impeachment de Dilma Rousseff foi um dos maiores" Pão e Circo "que assisti em minha vida. Protagonistas da" anticorrupção "envolvidos em corrupção. Alguns se livraram por prescrição da ação, outros foram presos. O Supremo Tribunal Federal, desde o Mensalão do PT, ficou nos holofotes, as pressões sociais recaiam como adagas afiadas — Como amar ou odiar os ministros do STF, advogados, jornalistas e a própria CRFB de 1988; Decisões do STF em virtude dos períodos históricos: RE 80.004-SE/77 e HC 126.292sobre os ministros."Bom"ou"mau"conforme o querer entre"coxinhas"e"mortadelas".

Nas redes sociais — acredito na possibilidade de intervenções no Brasil após assistir The Family, no Netflix; antes de assistir, as bancadas que se formam no Congresso Nacional para impedir o desenvolvimento do Estado laico —, religiosos, padres e bispos denunciavam o" marxismo cultural "e a" diabólica missão "de destruir os valores sagrados da família. Uma nova cruzada, a Marcha da Família com Deus" , agora digital, para "alertar" o povo. Notícias falsas não faltaram, os "esquerdistas" querem transformar todos os brasileiros, a partir dos primeiros anos de vida extrauterino, em LGBTs. Livros didáticos sobre sexualidade humana eram considerados como "exaltação da orgia", "da promiscuidade".

O interessante, a liberdade de expressão garantiu aos conservadores o direito de se expressarem. Impossível seria na China. O irônico, a liberdade de expressão é polarizada, a defesa da liberdade é conforme o gosto dos grupos.

O PT governou o Brasil por décadas. Muito deveria fazer, bem mais do que fez em 10 anos de poder. A direita, de 1891 até 1985, teve muito tempo para diminuir, consideravelmente, toda e qualquer forma de desigualdade social seja econômica ou por ideologia de "superioridade entre etnias". O fracasso secular da direita. Endeusar o PT não deve ser o intuito de qualquer cidadão consciente. Qualquer governo tem o dever constitucional de diminuir toda e qualquer forma de desigualdade social, de combater todo e qualquer tipo de corrupção, de ser sempre transparente, de jamais usar o Estado como repressor aos opositores.

O Brasil sempre foi vermelho em sua realidade, a bandeira é um sonho distante. É como cantar louvores diante do sacrifício. A dor da realidade e a fuga dela, o niilismo.

O Estado tem que ser laico, as instituições democráticas devem agir estritamente pelos princípios e pelas regras constitucionais. Fora disso, não há Estado Democrático de Direito. Combater corrupção é um dever de todo brasileiro. Cada postura deve ser ilibada, entre fazer por ninguém ver, e não fazer por alguém ver, a condição de não jamais fazer em qualquer circunstância. A bandeira vermelha do comunismo saiu das entranhas dos Poderes. Uma nova bandeira brasileira, de cor alaranjada, em nome do combate a corrupção, aos valores mais sagrados do cristianismo, porém com muito ódio. A questão da corrupção dentro do Estado é "caso de polícia"; a questão de respeito aos "diferentes" é caso de educação humanística.

Ou a sociedade muda, para o bem de todos, sempre em respeito às liberdades individuais, está sempre ao bem coletivo — nenhum ser humano é autossuficiente —, ou o Brasil continuará como sempre foi: a Arquitetura da Discriminação e sua Máquina Antropofágica.

NOTA:

[1] — BBC BRAIL. A história esquecida do 1º barão negro do Brasil Império, senhor de mil escravos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44792271

[2] — Spartacus Educational. Gary Webb. Disponível em: https://spartacus-educational.com/JFKwebbG.htm

[3] — USA. U.S. DEPARTMENT OF LABOR FAQ CONTACT US. Summary of the Major Laws of the Department of Labor. Disponível em: https://www.dol.gov/general/aboutdol/majorlaws

REFERÊNCIAS:

BBC BRASIL. Políticos que votam impeachment são acusados de mais corrupção que Dilma, diz jornal americano. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160329_latimes_impeachment_rm

________. 'Nossa luta contra Bolsonaro é a mesma que fizemos contra Lula e Dilma', diz cacique Raoni. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50022818

BORTOLUCI, José Henrique. Para além das Múltiplas Modernidades: Eurocentrismo, Modernidade e as Sociedades Periféricas. Disponível em: https://pesquisa-eaesp.fgv.br/sites/gvpesquisa.fgv.br/files/arquivos/para_alem_das_multiplas_modernidades_eurocentrismo_modernidade_e_as_sociedades_perifericas.pdf

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC). COROLÁRIO ROOSEVELT À DOUTRINA MONROE. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/COROL%C3%81RIO%20ROOSEVELT.pdf

OLIVEIRA, Henrique Altemani de. Os blocos asiáticos e o relacionamento Brasil-Ásia. São Paulo Perspec., São Paulo , v. 16, n. 1, p. 114-124, Jan. 2002 . Available from<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392002000100012&lng=en&nr.... access on 10 Feb. 2020. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392002000100012.

SALLUM JR, Brasilio. Governo Collor: o reformismo liberal e a nova orientação da política externa brasileira. Dados, Rio de Janeiro , v. 54, n. 2, p. 259-288, 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582011000200002&lng=en&nr.... access on 10 Feb. 2020. http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582011000200002.


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Para mim, a melhor parte não foi o “documentário” Mentira com Vertigem ter perdido o Oscar: foi a premiação ter tido a pior audiência de sua história. Talvez tenha acendido um alerta nos ricos que fingem ter consciência social — mas não chegam perto do pobre — que a população em geral está avessa à oligofrenia deles!

E em relação ao impeachment, também concordo ter sido “pão e circo”: foi impichada por 1/3 dos crimes de responsabilidade cometidos. Passei horas e mais horas lendo o acórdão do TCU, mas somente uma parte dali foi considerada, e nem foi o mais grave. Pior: ainda teve o episódio do fatiamento dos efeitos do impeachment, em uma nítida ofensiva contra a Constituição e o estado democrático de direito — com direito a participação de um Ministro do STF. Claro, essa parte da Mentira com Vertigem não é contada no “documentário”, pois não vale para a narrativa da garota milionária. E nem vale também para uma parte dos brasileiros que adora o atraso, idolatrando corruptos e possuindo fetiche pela manutenção da pobreza... continuar lendo